sábado, 9 de março de 2013

TRECHOS DA ENTREVISTA DE FRANCISCO WEFFORT CONCEDIDA À REVISTA ÉPOCA




O cientista político Francisco Weffort, de 75 anos, é um dos pensadores mais respeitados do país. Fundador do PT e secretário geral do partido entre 1984 e 1988, ex-ministro da Cultura no governo de Fernando Henrique, Weffort voltou à vida acadêmica, como professor colaborador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

- Na eleição de 1994, eis que o competidor do Lula era o Fernando Henrique, que foi meu professor. Para mim, era tudo muito complicado. Primeiro, eu não estava muito bem no PT. Em segundo lugar, eu iria participar de uma competição, como participei, apoiando o Lula, contra o sujeito que tinha sido um dos meus melhores professores e era meu amigo. Eu tinha trabalhado com ele no Chile, na época do regime militar no Brasil. Houve um momento em que eu falei: “Tudo isso é um preço muito alto, eu vou sair fora”.

- Em termos de política, o PT se desnaturou completamente. Seu compromisso popular vai até o Bolsa Família, até uma política econômica que enfatiza o consumo permanentemente, mas é um compromisso popular que perde inúmeras oportunidades de desenvolvimento econômico do país, porque não é capaz de aceitar que compromisso com o popular tem de ser um compromisso com o desenvolvimento da Nação.

- Na verdade, não dá mais para falar de socialismo. A não ser que alguém diga que a Rússia hoje é socialista. Ou que a China é socialista. O Lula é, até pelas dificuldades idiomáticas que ele tem, de uso da linguagem, um campeão das metáforas, que por definição são sempre muito ambíguas. Ele, na verdade, nunca falou muito de socialismo. Ele não sabe o que é isso. Nunca se interessou em saber. O Lula não tem o que dizer sobre o socialismo, porque ele não pensava em socialismo nenhum. Na verdade, o Lula tinha uma imagem do mundo, simplificada, na qual os Estados Unidos eram o mal mais óbvio, mais evidente.

- Agora, isso de insultarem a moça (Yoani Sánchez) foi uma senhora estupidez, uma cretinice. Mas isso é pau mandado. É como essa garotada que, em época eleitoral, aparece com faixa na rua. Pensa que é militante? Não é militante. É gente que ganha R$ 30 para ficar ali. O caso mais claro desse tipo de coisa foi o MR-8, que virou uma espécie de batalhão de choque do (Orestes) Quércia (ex-governador paulista). Eles eram o MR-8, que, na origem, significava Movimento Revolucionário 8 de Outubro, em homenagem ao Che Guevara. Ora, por favor, vamos parar com toda essa mitologia, porque tudo isso não significa mais nada.

- A convicção que o pessoal do PT tem é que quem controla a mídia são os proprietários dos veículos de comunicação e para eles quem deveria controlar a mídia seriam eles mesmos. Eles quem? Os políticos. Isso pode levar a uma situação parecida com a do Equador, onde o sujeito escreve um artigo criticando o presidente da República e depois tem que ir embora do país. O cenário no qual deve operar a opinião é o cenário definido pelo mercado. Se eu não quiser ver televisão, não vejo. Se eu não quiser comprar o jornal, não compro. Os jornais e a televisão e a mídia em geral devem poder oferecer todas as possibilidades de comunicação que queiram. É claro que tem limites para isso. Você não pode admitir que sejam difundidas no Brasil ideias favoráveis ao conflito.

- Primeiro, tivemos aquele caso do (José) Sarney quando ele estava na presidência do Senado, aquelas decisões secretas de gastos. Foi um escândalo enorme. Depois, teve o Renan Calheiros, que não pode continuar como presidente do Senado, depois de ter sido acusado de corrupção. Agora, ele está de volta. Isso tudo é muito desmoralizante. A Câmara Federal e o Senado são instituições importantes do funcionamento da democracia estão extremamente desmoralizados. O prestígio eleitoral no Brasil é quase todo dos candidatos majoritários, ao prefeito, governo do Estado e presidência. Isso é um dos germes do autoritarismo, porque a democracia funciona com poderes, que se equilibram. O que a gente tem no Brasil é a perda da independência do Legislativo.

- Essa classe média não é classe média. Isso é só propaganda. Desde o Plano Real, o Itamar, o Fernando Henrique, o Lula, houve uma mudança importante, uma melhora de qualidade de vida para uma massa muito pobre no Brasil. Não acho que isso seja classe média, mas que melhorou, melhorou. A situação econômica hoje não é nada extraordinária, mas melhorou. Agora, esse pessoal vai votar em quem lhes interessar. Essa é a regra geral da democracia.

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